Os atentados terroristas nos Estados Unidos, em Madrid e em Londres, são a consequência – ao contrário do que muitos querem fazer crer – das ambições de poder de alguns. O sonho de um novo Califado e o controlo de uma vasta região extremamente rica em petróleo é a razão primeira deste terrorismo de “base religiosa”, ou melhor, deste terrorismo que utiliza a religião para justificar o injustificável, para ganhar adeptos e peso social, mas que verdadeiramente pouco tem de religioso.
A Al Qaeda (os seus cabecilhas) está pouco preocupada com as questões religiosas ou com as “causas” que servem de justificação aos atentados (Palestina, Afeganistão, Iraque etc). A sua verdadeira motivação é a criação de um Califado pan-islâmico, um Estado islâmico único, que com o poder que o ouro negro proporciona, conseguiria chantagear o resto do mundo e até, quem sabe, o conseguiria conquistar. E de que é que estamos a falar? De imperialismo, imperialismo puro! Daquilo que acusam os americanos e os seus aliados.
Vale a pena recordar algumas frases proferidas, nestes últimos anos, por alguns islamistas radicais (In revista Atlântico 31/03/2005, artigo assinado por Paulo Tunhas):
“O Islão voltará à Europa como um conquistador vitorioso”. Yousef Al-Qaradhavi, a mais elevada autoridade religiosa da Fraternidade Islâmica.
“Sim, o meu sonho é colocar a bandeira do Islão no nº 10 de Downing Street”.
“Não fazemos a distinção entre civis e não civis, inocentes e não inocentes. Apenas entre muçulmanos e descrentes. E a vida de um descrente não tem qualquer valor”.
“ O 11 de Setembro fez os muçulmanos compreenderem que têm poder, que o renascimento do Islão é irreversível”. Omar Bakri, um dos líderes do “Londonistão”.
“A fonte de todos os tormentos e sofrimentos humanos é a “democracia liberal” promovida pelo Ocidente como pensamento político progressista”. Ali Khamenei, Líder Supremo iraniano.
É disto que estamos a falar. É disto que estamos a falar quando culpamos o Ocidente (ou alguns dos seus dirigentes) pelos atentados terroristas. É disto que estamos a falar quando tentamos encontrar as razões do terrorismo nas atitudes do ocidente.
Será difícil entender que as motivações de Bin Laden existiriam sempre e independentemente do que o Ocidente fizesse? Que Saddam Hussein tentaria sempre invadir o Kuwait independentemente do que o Ocidente fizesse?
Estes são dois exemplos de dois candidatos a califa, dois rivais que queriam (querem) o poder absoluto, mas há outros. O prémio é demasiado grande para haver desistências, é a glória ou a morte.
Após o atentado à escola de Beslan, na Ossétia do Norte, Omar Bakri disse: [não que não fosse legitimo os mujahidin matarem crianças, mas] “a culpa é dos russos”. É disto que estamos a falar quando alinhamos com ele e culpamos os russos, os americanos e todos os outros países ocidentais vítimas de atentados. É disto que falamos quando aplaudimos o Ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol – Miguel Angel Moratinos – que no discurso após os atentados em Beslan nos convidou a “perceber” o que os levou a matar. Perceber a morte de 500 crianças? Perceber que as vítimas são os culpados e os culpados as vítimas?
Vamos então tentar perceber porque é que os terroristas islâmicos gozam desta impunidade entre alguns políticos e intelectuais do Ocidente. Uma das explicações possíveis é a de Paulo Tunhas, ele recorre a Freud e à sua tese sobre a “omnipotência do Pensamento”. Diz Paulo Tunhas: “ Um aspecto importante da crença na omnipotência do pensamento é a ideia de que nós mesmos somos portadores de actividade: o mundo inerte depende, por inteiro, da nossa vontade. Trata-se de uma ideia muito presente, se bem que de forma implícita e quase inconsciente, nos debates políticos dos nossos dias. E presente de uma maneira característica. Só nós enquanto civilização ou cultura (digamos: o ocidente), somos activos; os outros (enquanto civilizações ou culturas) sofrem de uma incontornável passividade. Quando alguém como Noam Chomsky apenas critica os Estados Unidos e o Ocidente, e não, por exemplo, regimes sanguinários como o dos Khmers Vermelhos, porque as exigências morais do EUA e do Ocidente são infinitamente superiores às do resto do mundo, está a dar-nos um exemplo óptimo deste preconceito e da hipervalorização ontológica da actividade do sujeito (ou da cultura, ou da civilização) própria à crença na omnipotência do pensamento”.
Para simplificar, até porque Paulo Tunhas tem uma obra que de forma alguma cabe aqui, o que Paulo Tunhas quer dizer (esta é a minha interpretação), é que para nós (ocidentais) o resto do mundo não conta. São primitivos, atrasados, coitados e burros, logo inimputáveis. É a mesma lógica que se aplica aos animais. Se foste atacado por um tigre foi porque fizeste alguma coisa errada, porque ele só seguiu os seus instintos.
Mas Paulo Tunhas introduz um outro conceito não menos interessante, o conceito de “racismo altruísta”: “Este tipo de atitude, sob as vestes de uma louvável abertura ao outro, e de um saudável anti-racismo, representa, de facto, a mais sofisticada forma de racismo – uma espécie de racismo altruísta, se assim se pode dizer. Um racismo que discrimina o outro em função da sua radical singularidade, sendo a singularidade considerada em si, sem qualquer espécie de cláusulas, como um valor positivo. Essa singularidade é o avesso da nossa própria identidade culpada, e, no seu excesso, tão imaginaria quando esta. De facto, o outro é apresentado como estruturalmente passivo e radicalmente inocente, movendo-se apenas por reacção, e pecando, se é que se pode utilizar a palavra, por angélica ausência de responsabilidade. O que significa: um menor, uma criança. A partir deste momento, o diálogo torna-se impossível, porque este exige que se suponha actividade e responsabilidade ao parceiro de conversa, bem como uma vontade comum de chegar a acordo”.
Mas há também outras abordagens (se bem que complementares) a este tema, mesmo do próprio Paulo Tunhas, de Fernado Gil e de Danièle Cohn no livro “Impasses”, ou de Mathias Doepfner (presidente do grupo de “media” alemão Axel Springer) num artigo fantástico publicado no “Público” de 8 de Agosto com o título “Europa, o teu nome é cobardia”.
Vou começar pelo artigo de Mathias Doepfner. Ele começa por dizer que o escritor Henryk Broder fez uma acusação demolidora à Europa ao dizer: “Europa, o teu apelido é apaziguamento”. Mas optou por pegar na frase de Broder e dar-lhe ainda mais força, converteu-a na mais grave acusação que se pode fazer a um estado ou a um conjunto de estados e tornou-a no título do seu artigo: “Europa, o teu nome é cobardia”!
Doepfner utilizou os argumentos de Broder e acrescentou mais alguns. Faz sentido, nesta análise, observar alguns dos argumentos de um e outro. É uma boa forma de combater a amnésia colectiva, que as notícias de 30 segundos no telejornal não ajudam a ultrapassar.
“O apaziguamento custou a vida a milhões de judeus e não-judeus, enquanto a Inglaterra e a França, aliadas na altura, negociavam e hesitavam tempo de mais antes de se aperceberem que tinham de lutar contra Hitler e derrotá-lo, porque ele nunca cumpriria um acordo”.
“Mais tarde, o apaziguamento legitimou e deu estabilidade ao comunismo na União Soviética, depois na Alemanha de Leste e, depois ainda, no resto da Europa de Leste, onde durante décadas governos desumanos, repressivos e criminosos foram glorificados”.
“O apaziguamento estropiou igualmente a Europa quando o genocídio assolou a Bósnia e o Kosovo. Embora tivéssemos provas irrefutáveis da carnificina, nós, europeus, continuámos a organizar debates e mais debates. Ainda estávamos na fase dos debates quando, finalmente, os americanos vieram do outro lado do mundo fazer o trabalho por nós”.
Ainda nos argumentos de Broder, podemos encontrar referências bastante pertinentes à postura da Europa relativamente ao conflito israelo-palestiniano e a Saddam Hussein: “A Europa ainda não aprendeu a lição. Em vez de proteger a democracia no Médio Oriente, o apaziguamento europeu, camuflado por trás da expressão ambígua da “equidistância”, parece muitas vezes aprovar os atentados suicidas cometidos pelos palestinianos fundamentalistas em Israel”.
Agora é a vez de Doepfner dizer: “Esta hipocrisia continua, mesmo depois de se descobrir que alguns dos maiores críticos da intervenção militar americana no Iraque lucraram milhões de dólares ilicitamente – na realidade, dezenas de milhares de milhões – com o programa, que se provou corrupto, das Nações Unidas “petróleo por alimentos””.
É interessante analisar este último argumento. A verdade é que, frequentemente, em política, as acusações servem para “gastar” os argumentos que poderão ser utilizados contra nós. A acusação de que os americanos foram para o Iraque para lucrarem com o petróleo é tão válida como a do contrário, ou seja, que alguns países da Europa não queriam os americanos no Iraque para não perderem os negócios e os lucros provenientes do petróleo iraquiano. É próprio de espíritos demasiado crentes, ou desonestos, acreditar que os americanos estavam mais interessados no petróleo iraquiano do que os franceses, por exemplo.
Esta técnica de “gastar” os argumentos foi utilizada relativamente aos interesses americanos no Médio Oriente, foi utilizada relativamente à postura imperialista dos americanos e foi utilizada, inclusivamente, acusando os americanos de terrorismo! Como é fácil verificar, estes argumentos podem ser usados, senão com mais, pelo menos com a mesma propriedade, contra quem os utilizou. Mas o principal problema não é esse, o principal problema é que há duas formas opostas de encarar o mundo. E nesta batalha tão importante, não há lugar para os neutros. A posição tradicional da Europa, a neutralidade, aqui não se aplica.
Como diz Doepfner: “Que atrocidades terão ainda que ocorrer antes que os povos europeus e os seus líderes compreendam o que realmente se está a passar no mundo? Está em curso uma espécie de cruzada – uma campanha especialmente pérfida que consiste em ataques sistemáticos de islamitas contra alvos civis, ou seja, atentados directos às nossas sociedades ocidentais, livres e abertas, com a intenção de as destruir por completo”.
“Hoje, deparamo-nos com um conflito que provavelmente durará mais tempo do que qualquer um dos grandes confrontos militares do último século – um conflito levado a cabo por um inimigo que não pode ser subjugado pela “tolerância” e “boa-vontade” porque, na verdade, ele é estimulado por esses mesmos gestos. Essas respostas já provaram ser sinais de fraqueza e serão sempre vistas como tal pelos islamitas”.
“Hoje em dia, a Europa faz-me lembrar uma velha senhora que, com mãos trémulas, esconde freneticamente as últimas jóias que lhe restam ao ouvir um ladrão arrombar a casa do vizinho. Apaziguamento? É apenas o começo. Europa, o teu nome é cobardia”.
Na sequência das ideias de Paulo Tunhas e Doepfner, talvez não seja descabido dar alguns exemplos. Vamos imaginar que eu e mais uns quantos, por não concordarmos com o aumento do IVA, com a construção do aeroporto da OTA ou com a nomeação do Armando Vara para a CGD, desatávamos a fazer atentados e a matar milhares de inocentes que viajavam de avião, metro ou comboio. Será que a opinião pública era de opinião que o que deveria ser feito era “entender” as nossas razões, por mais válidas que fossem? Será que iriam acusar o governo pelos atentados? Ou será, que pelo contrário a opinião pública pedia o regresso à pena de morte para esse tipo de crimes?
Será que acusamos o governo espanhol pelos atentados da ETA? Independentemente de concordarmos ou não com as razões dos bascos, não concordamos com os atentados nem confundimos os autores materiais dos mesmos com as suas vítimas.
Porque é que não temos a mesma postura relativamente ao terrorismo islâmico? Será por cobardia? Será por racismo (o tal “racismo altruísta” de que fala Paulo Tunhas)? Ou será por ambos?
Uma das primeiras coisas que aprendi enquanto gestor, foi que, independentemente de num determinado momento não me apetecer abrir um conflito com alguém, eu tinha que o fazer quando surgia o problema, não o podia adiar. Essa “agenda” não é controlada por nós sob pena de quando formos resolver o problema a solução ser muito mais difícil de encontrar e ser, provavelmente, muito mais “cara”. Os recursos exigidos e os danos causados são, em regra, muito superiores.
A Europa não pode continuar a assobiar para o lado, como se o problema não existisse. Tem que agir assumindo os custos dessa atitude, sob pena da factura a pagar no futuro ser muito superior.
Não depende de nós acabar de vez e rapidamente com o terrorismo, isto é claro para toda a gente. O que depende de nós é a forma de fazer frente ao problema.
Europa, que o teu nome seja coragem.
P.S. Como o "post" já vai longo, vou deixar a abordagem do livro "Impasses" para mais tarde.